sábado, 12 de outubro de 2019

HENRY FORD, EMPRESÁRIO ESCLARECIDO



Nos primeiros anos do século XX Henry Ford criou o sistema de produção em série na sua fábrica de carros. Deu certo: a produção aumentou, os custos diminuíram. Só que em vez de demitir trabalhadores para aumentar seus lucros ele fez o contrário: aumentou os salários e reduziu as jornadas dos trabalhadores.
Ford se tornou um ídolo nos Estados Unidos e um exemplo de capitalista esclarecido. Mas seu exemplo não foi seguido - o século não havia terminado e os empresários norte-americanos e de todo o mundo  fizeram o contrário de Ford. Para produzir mais a menor custo, transferiram as fábricas para países onde a mão de obra é mais barata, passaram a usar cada vez mais a automação e demitiram trabalhadores,  substituídos por máquinas.

Como terminará este processo de concentração de renda nas mãos de poucos biliardários e a redução dramática do mercado de trabalho ainda não sabemos.
Um amigo psiquiatra prevê uma sociedade de miseráveis, famintos, desempregados, governados por elites tirânicas e insensíveis. Outro, filósofo, acredita que o próprio capitalismo achará uma saída para a sua sobrevivência, pois de nada adiantará fabricar produtos sem que haja que os possa comprar.
Fica a pergunta: como a humanidade fará esta travessia?

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

LUZ E SOMBRA




quarta-feira, 25 de setembro de 2019

BOM HUMOR, DE MANHÃ?



Há quem garanta que nenhum ser humano normal consegue pensar antes das dez da manhã, muito menos ter vontade de achar graça em alguma coisa.
Por um acaso do destino - ou por falta de outra opção profissional-, sempre tive que madrugar. Na rádio Continental (a dos anos 70), na rádio Gaúcha, na RBSTV, na Folha da
Tarde, no Correio do Povo, meu batente começava cedo. E os neurônios tinham que estar conectados.
Na Zero Hora, durante anos, coordenei a "reunião das nove", na qual organizávamos a produção do dia. E o maior desafio não era a pobreza da pauta das editorias, mas as noites mal dormidas dos seus representantes. Jornalista que se preze gosta de ler, conversar e beber até a madrugada.
O Ivo Stigger é uma rara exceção. Lá nos tempos do Correio do Povo. em 1979, eu chegava cedinho para fazer a pauta. Quando o Ivo chegava, o silêncio da redação era quebrado pelas gargalhadas. Ele e o Gandolfo, da coluna de fúnebres, sempre tinham histórias hilariantes para contar. E levantar o astral dos colegas que chegavam.
Nos anos 80 trabalhamos juntos na editoria de Geral de Zero Hora, onde ele foi repórter e editor e eu pauteiro - aquele cara que ganha para bolar bons assuntos para os repórteres transformar em reportagens.
Num dos churrascos de fim de ano da editoria capitaneada pela Núbia Silveira, depois dos comes e bebes, o Ivo Stigger pediu a palavra. Tirou do bolso um maço de laudas (aquelas folhas de papel onde, antes da era digital, se redigiam as reportagens) e, no tom mais sério que conseguiu, passou a descrever as agruras de um dia de repórter.
Chamado pelo chefe de reportagem (na época eram dois, o Adilson Porto Alegre e o Hélvio Schneider), o infeliz recebia as pautas do dia: entrevistar o secretário da Saúde (que está te esperando, sai correndo), depois fechar a matéria com o diretor do hospital. "E já que vais no hospital pergunta como estão as obras de restauração (dá outra matéria) e no caminho confere como está aquele buraco da João Pessoa aberto há meio ano. Ah, e como estamos no início da primavera pede uma boa foto para o retratista e faz uma materinha ambiental que pode render capa."
E quando o repórter volta, esbaforido, louco por um lanche, a ordem: "senta aí e escreve as matérias, que não podemos atrasar o baixamento."
Gargalhadas gerais, inclusive das vítimas da gozação.




Na foto, Ivo Stigger, há dois anos dedicado apenas aos prazeres da vida, como jogar tênis e jogar conversa fora com amigos, como Ayres Cerutti à esquerda)  e Antônio Goulart.
Cada um com boas histórias para contar.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

PRIVILÉGIO PARA POUCOS



As margens dessas lagoas, em Tramandaí e Imbé, deveriam ter sido preservadas, para uso e deleite públicos. 
Como nunca houve qualquer preocupação de prefeitos, vereadores e da população para isso, acabaram sendo um privilégio de poucos, que construíram suas casas com fundos (e esgoto) para este cenário tão lindo. 
Restaram, para ter acesso à beira das lagoas, alguns fins de rua, com muros altos de ambos os lados.
O mesmo ocorre em muitas (quase todas) cidades do litoral gaúcho e catarinense, onde as construções avançam até a beira das lagoas, dos rios e do mar.



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

MORAR NA PRAIA






Muitas vezes amigos que moram em Porto Alegre me perguntam como é viver no Litoral. Às vezes são mais diretos: "como é que você aguenta morar na praia?".
Para eles, acostumados com a cidade grande - vida cultural intensa, bares,  restaurantes, shoppings, amigos e familiares por perto e, claro, o brique da Redenção aos domingos -, o litoral gaúcho é quase uma Sibéria: ventos congelantes,  frio, umidade e solidão no inverno, vento nordestão, mar gelado cor de chocolate no verão. Nas férias, eles correm para Santa Catarina, com suas belas praias de mar transparente.
Quando eu não tenho tempo ou saco para dar explicações, dou uma resposta curta: "depois de aprender gaivotês e quero-querês fica suportável". Mas em geral eu sou sincero.
A primeira coisa que esclareço é sobre a temperatura. No verão é sempre dois ou mais graus mais baixa, mas no inverno ocorre o contrário: a água do mar absorve o frio, e os termômetros marcam sempre dois ou mais graus acima do que é registrado na capital. Geada ou neve, jamais. 
Sim, tem vento e chuva, a grama encharca. Mas pelo menos no Imbé, que por enquanto só tem um edifício, o sol, quando há, seca e aquece. 
O Litoral é a região com maior crescimento demográfico no Rio Grande do Sul. A maioria dos migrantes é composta de aposentados. A maior vantagem é econômica. Os imóveis custam menos e tudo é mais barato: um botijão de gás em Porto Alegre custa 84 reais. Em Imbé, de 64 a 70 reais. Um bom restaurante self service,  com bufê livre, cobra cerca de 15 reais. Há bons supermercados e mercadinhos, com produtos de qualidade a preços razoáveis - o poder aquisitivo dos clientes  contém a ganância dos comerciantes.
O segundo fator é a saúde pública. Os postos de saúde e hospitais da região solucionam até 80 por cento dos problemas dos moradores. Se for algo mais complicado (exames, consultas a especialistas, intervenções cirúrgicas) os pacientes são mandados em ambulâncias ou vans das prefeituras para hospitais de Porto Alegre, com horário marcado. 
O terceiro é a segurança. Assaltos e arrombamentos são raros. Pode-se caminhar tranquilamente pelas ruas e na beira da praia. As empresas de monitoramento têm uma importante função de prevenção. Paga-se uma mensalidade,  cerca de 120 reais,  mas não chega perto do valor de um condomínio num edifício. 
Acima de tudo está a boa vida do interior. Nada de trânsito caótico, de estresse.  Quando chega o verão, o ritmo aumenta na proporção do aumento da ocupação das casas, e nos finais de ano, no carnaval e nos fins de semana veranistas colorem as ruas e as praias. Mas há lugar para todo mundo, e é a época em que comerciantes faturam e os que querem trabalhar ganham algum dinheiro.
Para quem tem filhos, Imbé conta com uma boa rede de ensino público, estadual e municipal. Se eles gostam de música, podem aprender qualquer instrumento na escola de música do município. O traje oficial por aqui é "à vontade" - abrigo, tênis, bermuda, camiseta. Gravata? Só os pastores...
Dorme-se bem. À noite, o silêncio só é interrompido por algum carro ou moto. As pessoas se conhecem,   conversam. A praia fica logo ali, o ar é puro, e não custa nada. 
E, quando o tédio e a solidão começam a bater, é só pegar a estrada para rever amigos, fazer compras, comer num bom restaurante, ver um show ou um filme  e... voltar. 




De vez em quando equipes da prefeitura cortam a grama, limpam as sarjetas e pintam os meios-fios. O lixo é recolhido diariamente, sete dias por semana 



Os quiosques da avenida Mariluz




As belas paisagens das lagoas 






O DESCANSO DO LOBO MARINHO



A jornada desde a Antártida é longa, ainda falta muito para chegar a águas menos frias, e o abrigo mais próximo fica a 100 quilômetros, na ilha dos Lobos, em Torres. 
Exausto, este lobo marinho foi até a praia, em Mariluz, para descansar. Ele ficou três dias imóvel, e depois de recuperar as energias seguiu viagem.
Os moradores do litoral gaúcho já sabem: não se deve mexer com eles, nem dar água ou alimento. Tudo que precisam é de sossego.



domingo, 18 de agosto de 2019

A GUERRA DO PESCADO




De 1961 a 1963 o Brasil e a França estiveram em guerra. Foi a chamada Guerra da Lagosta, causada pela pesca do crustáceo na costa do nordeste brasileiro por barcos franceses. O governo brasileiro reagiu com energia. O presidente Jânio Quadros chegou a ordenar a invasão e a anexação da Guiana francesa, a França mandou navios de guerra para proteger eu território, mas Jânio renunciou antes disso e o assunto foi resolvido sem que nenhum tiro ser disparado. Cinco décadas e meia depois, Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão numa guerra pelo pescado gaúcho. 
No final de 2018, uma lei estadual determinou que os barcos pesqueiros só podem atuar a 12 milhas náuticas (cerca de 22 quilômetros) do litoral gaúcho, com o objetivo de impedir a pesca de arrasto - navegando perto da costa os barcos arrastam redes no fundo do mar, retirando peixes de todo tamanho e jogando fora, mortos, aqueles que não têm valor comercial. É um método predatório, que vinha reduzindo a quantidade e a variedade de peixes.
A indústria pesqueira catarinense quer derrubar a lei na Justiça, e apela por apoio do governo federal, alegando que ela fere de morte o setor pesqueiro do estado. Não é para menos: Santa Catarina produz a metade do peixe industrializado no Brasil. Foram 64 toneladas só no primeiro semestre do ano passado. Deste total, 58% foram pescados por barcos saídos de portos localizados em toda a costa catarinense, de São Francisco do Sul a Passo de Torres, para lançar suas redes em boa parte do litoral brasileiro e também no Uruguai.  Cerca de 25 mil pessoas trabalham na pesca artesanal, nos barcos e nas fábricas.
Os catarinenses não costumam respeitar as normas legais de proteção à fauna marítima. Mesmo quando o limite para pesca era de três milhas da costa, os barcos faziam arrastos junto à costa gaúcha, e as apreensões eram raras devido à falta de fiscalização. Pescadores artesanais e os donos dos poucos barcos de pesca que restaram na colônia de Pesca de Tramandaí relatam que nestes poucos meses de vigência da lei já é possível notar um aumento nos cardumes da região. Mas seja qual for o limite imposto, o importante é que haja um controle permanente da atividade pesqueira.