sexta-feira, 14 de junho de 2019

REFLEXOS



São Paulo



quinta-feira, 13 de junho de 2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

O PIANO IMAGINÁRIO





Desde sempre eu curti música, mesmo estando em silêncio. Bebê, eu me agitava, batia bracinhos e perninhas, quando o rádio tocava certas músicas de que eu gostava. 
Sempre tem alguma música na minha cachola - Bach, Mozart, Chico Buarque, Beatles, Stones. Às vezes tenho que fazer um esforço para trocar de música. Aparece até uma velha canção alemã, perdida lá no fundo da memória, da qual só me lembro o refrão: " So schoen, schoen war die zeit" - tão lindo, lindo era aquele tempo.
O ouvido musical já me fez pagar um baita mico. Eu tinha uns sete, oito anos, quando uma vizinha veio contar para a minha mãe que vira o filho dela tocando um piano imaginário, caminhando na volta da escola. 
Na época passei vergonha. Hoje, agradeço por esta dádiva. 
Como dizia Artur da Távola, "música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão".


Foto: o piano de Liane Leipnitz

sábado, 1 de junho de 2019

SOY LOCO POR TI, GDA





Miami, capital da América Latina


Muitos brasileiros - inclusive jornalistas - desconhecem e até desprezam os países da América Latina. As informações que nos chegam são produzidas com o enfoque das agências de notícias e redes de televisão  norte-americanas e europeias,  para quem o hemisfério sul só é notícia se acontece alguma catástrofe, golpe militar ou algo grotesco.
Para furar este bloqueio,  defender interesses comuns e captar publicidade foi criado em 1991 o GDA - Grupo de Diarios America -, uma associação de jornais latino-americanos cujos primeiros membros foram o La Nación, da Argentina, o El Mercurio, do Chile, e O Globo, do Brasil. Outros jornais de prestígio, do México, da Costa Rica, do Equador, da Colômbia, da Venezuela, do Peru e do  Uruguai,  passaram a participar do grupo, entre eles Zero Hora, de Porto Alegre. Por uma questão de logística a cidade escolhida para sede foi Miami, nos Estados Unidos.
Os jornais passaram a trocar informações, reportagens e fotos que não eram distribuídas pelas agências de notícias americanas e europeias. Um editor, baseado em Miami,  foi contratado para coordenar o trabalho de garimpar assuntos, fazer contatos e distribuir o material  produzido pelos diários. 
Os jornalistas indicados pelos seus diários para representá-los se reúnem periodicamente em Miami ou numa das cidades onde os jornais são publicados  para a troca de ideias e a produção de pautas conjuntas.  Zero Hora participou do grupo de 1999 a 2003, e nesses cinco anos fui o editor do GDA. 
Apaixonado pela América Latina, participei com entusiasmo das reuniões, que duravam dois dias.
Nesse período, Zero Hora publicou muitas matérias do grupo, principalmente de economia, coberturas de assuntos ignorados pelas agências de notícias e cadernos de turismo. 
Mas o que me dava mais prazer era sair para jantar com os  colegas, alguns dos quais se tornaram meus amigos. Comíamos, bebíamos e, mais do que tudo, falávamos sobre o que estava acontecendo nos nossos países. 
Foi um dos maiores, e o mais prazeroso desafio que enfrentei em minha carreira.




 GDA: o prazer de um bom papo. No fundo, à esquerda, a editora Lyng-Hou Ramirez Hung, uma das mais talentosas jornalistas com quem trabalhei. 


sábado, 25 de maio de 2019

OUTONO



quinta-feira, 23 de maio de 2019

VISCONDE DE MAUÁ







Lá nos anos 70/80, Visconde de Mauá entrou no circuito dos lugares mais "transados" do país, assim com Búzios (RJ) e o Arraial d'Ajuda (BA).
No alto da Serra da Mantiqueira, junto ao Parque Nacional de Itatiaia, nas divisas de SP, RJ e MG, Mauá teve no psicanalista Roberto Freire, autor do livro "Ame e dê Vexame", seu maior divulgador.
E lá fomos nós. Saímos do Rio, desembarcamos em Resende e lá tomamos um busão com muitíssimos quilômetros rodados para subir a serra, numa estradinha de chão batido. No meio do caminho, uma parada num bar/alambique, onde quase todos os passageiros beberam uma pinga, purinha. Era inverno, e fazia frio.
No dia seguinte, caminhada montanha acima. Em Maromba, o último lugarejo, junto à famosa cascata do Escorrega, surpresa: o bar Breton, com poesias e textos do poeta e filósofo surrealista francês André Breton nas paredes. No cardápio, uma cerveja chamada Black Princess.
Hoje a cerveja, fabricada em Teresópolis, já pode ser comprada nos supermercados do RS. É muito boa.
Mas para quem curtiu Mauá naquela época tem um sabor especial.

terça-feira, 21 de maio de 2019

E O SEU HERMES COMPROU UMA ARMA


Dono da farmácia Petrópolis, o seu Hermes era o farmacêutico, o enfermeiro e o médico do bairro. Pessoa boníssima, sabia qual o remédio mais indicado, aplicava injeções, dava conselhos. 
Um dia, assaltaram a sua farmácia, na esquina da avenida Protásio Alves com a rua Santos Neto. Depois, assaltaram de novo. E novamente. 
Aí Hermes Toledo, um homem calmo, a vida resolvida - a mulher tinha um salão de beleza, o filho cursava faculdade - decidiu comprar um revólver. Fez curso de tiro, registrou a arma, colocou na gaveta. Quando os assaltantes chegaram, ele atirou. Um deles foi levado para o Pronto Socorro, onde morreu. Além da pistola que que tinha na mão, havia outra,na bota.
Os dois comparsas fugiram, mas dias depois voltaram, com outros companheiros, para dar o recado: "nós vamos te apagar". Desciam do ônibus, atravessavam a rua, chegavam na porta, faziam ameaças e sumiam. Além disso, respondeu a processo por assassinato.
O seu Hermes perdeu a calma, a paz. Passou a sofrer de insônia, depressão, se tornou um homem nervoso, paranoico. Em meio ano, sua vida estável e tranquila acabou. Fechou a farmácia, foi internado em clínica psiquiátrica.
Apareceu um câncer, e ele acabou morrendo. 
Nos meus tempos de repórter de polícia na sucursal do jornal O Globo entrevistei o então chefe de Polícia, delegado Frederico Eduardo Sobbé, sobre a questão do porte de armas. O que ele me disse ficou gravado na minha memória. "Os assaltantes não têm nada a perder, e em geral estão drogados. Mesmo que você saiba atirar, sempre vais vacilar antes de tirar a vida de alguém. Eles, não."




sábado, 11 de maio de 2019

QUINTANARES



Que tipo de poesia fazia Mário Quintana?
  Um dos seus melhores amigos, o também poeta Manuel Bandeira, definiu: quintanares. 


POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA

Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O Arranha-Céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros,
nos tiranossauros,
Que mais sei eu...
Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os arranha céus!
Daqui
Do fundo
Das suas goelas
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas empinadas
gargantas ressecas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
À janela onde trabalho
Há uma grande árvore...
Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore...Enquanto há verde,
Pastai, pastai, olhos meus...
Uma grande árvore muito verde...Ah,
Todos os meus olhares são de adeus
Como um último olhar de um condenado!




CARTAZ PARA A UMA FEIRA DO LIVRO

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.


O PIOR

O pior dos problemas da gente é que  ninguém tem nada com isso.

A AMIGA

Ele chegou ao bar, pálido e trêmulo. Sentou-se.
- Por enquanto, nada - desculpou-se ao garçom. Estou esperando uma amiga.
Dali a dois minutos, estava morto.
Quanto ao garçom que o atendeu, esse adorava repetir a história, mas sempre acrescentava ingenuamente:
- E até hoje a "grande amiga" não chegou.

A ESFINGE

Na volta da esquina encontrei a esquina. Petrifiquei-me. Ela me disse então, olhando-me nos olhos: 
- Devora-me ou decifro-te.

CAMUFLAGEM

A esperança é um urubu pintado de verde.

PENSAMENTO PARA O TEU ANIVERSÁRIO

Nem todos pode estar na flor da idade, é claro!
Mas cada um está na flor de sua idade.

TEMPO

Coisa que acaba de deixar a querida leitora um
pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

DA MODÉSTIA

A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta

IDEIAS

Não sou desses que um dia pensam uma coisa e
no outro pensam outra coisa muito diferente. Eu
penso as duas coisas ao mesmo tempo. Duas ou mais.
Não tenho culpa se sou ecumênico.

NOTURNO

Atenção! O luar está filmando...

IMAGEM

O gato é preguiçoso como uma segunda-feira

PARA QUE SERVE UM CACHORRO?

Um cachorro serve para a gente falar sozinho.
Que o digam estes errantes vagabundos, a quem pode 
faltar tudo, menos um cachorro.E estas velhinhas que
 ficaram sem família. E os meninos que nunca tiveram
infância.

DOIS VERSOS PARA GRETA GARBO

O teu sorriso é imemorial como as Pirâmides
e puro como a flor que abriu na manhã de hoje.







Foto de Dulce Helfer







sábado, 27 de abril de 2019

VIDEIRAS DE CRISTAL



Demorei quase três meses para ler as 540 páginas do livro Videiras de Cristal. Não que o romance histórico de Luiz Antonio de Assis Brasil sobre os muckers fosse chato, mal escrito. Pelo contrário. Mestre da arte narrativa, Assis Brasil me fez sentir a realidade nua e crua da colônia alemã da região de São Leopoldo da década de 1870. 
Descendente de imigrantes alemães que vieram para o Brasil a partir de 1828, me vi transportado para aqueles tempos em que, abandonados à própria sorte, os colonos sobreviviam do que plantavam, dos animais que criavam e do que caçavam e pescavam. E sofri com isso. De vez quando, dava um tempo, para depois recomeçar.
Os muckers (em alemão, santarrões, falsos religiosos) viviam nos arredores da atual Sapiranga, junto ao morro Ferrabrás. Colonos miseráveis de toda a região - São Leopoldo, Hamburgo Velho, Lomba Grande, Campo Bom-, recorriam a João Jorge Maurer, o wunderdoktor ( doutor maravilha) para curar as suas doenças com chás e compressas. Quase sempre dava certo, e ele não cobrava nada.
Jacobina, a esposa, cuidava da parte espiritual. Paranormal, recitava passagens bíblicas, confortava, animava. Com o tempo, Jacobina se tornou tão importante para eles quanto o doutor. E de todo lado surgiam novos pacientes, em busca de cura para o corpo e o espírito.
Os padres católicos e os pastores luteranos viam seus templos se esvaziarem - e não gostaram nada disso. Lideraram uma campanha para desmoralizar a santarrona e seus seguidores, e tiveram o apoio dos líderes políticos da comunidade. Hostilizados, agredidos e difamados, os muckers se fecharam cada vez mais e, depois de verem cair no vazio apelos às autoridades estaduais e até para o imperador D.Pedro II para que fossem deixados em paz, reagiram atacando seus adversários. Multiplicaram-se as mortes e incêndios de casas. Alarmado, o presidente da Província enviou uma força policial para acabar com o foco de revolta. O final, todos sabemos: afora aqueles que foram presos nas primeiras escaramuças e enviados para Porto Alegre, todos os demais - homens, mulheres e crianças - foram mortos a tiros ou a baioneta, após uma resistência que lembrava a dos paraguaios na recente guerra contra o império brasileiro.
E, depois de fechar o livro, resta a pergunta: por que tanto fanatismo, que leva pessoas pacíficas, ordeiras, ignorantes ou letradas, à desgraça e a morte ?
O que leva alguém a abdicar da razão, do livre arbítrio, para seguir cegamente um líder religioso ou político?





Entardecer visto do alto do morro do Ferrabrás


quarta-feira, 24 de abril de 2019

TRAMANDAÍ PERDE SUA ALMA







A cidade tem localização privilegiada, à beira mar, junto a um belíssimo lago e um rio apropriado para marinas e banhos. Poderia ser charmosa e atrair turistas de toda a região sul do Brasil e da Argentina. 
Não vou compará-la com Miami, onde alguns malucos transformaram um charco numa meca do turismo, mas a Gramado, que usou seus atrativos naturais e direcionou seu crescimento para o turismo, quando poderia ser apenas mais uma cidadezinha sem graça lá da Serra.
Em Tramandaí os prefeitos, vereadores e empresários não se deram conta do potencial que tinham nas mãos e deixaram tudo ao sabor dos interesses econômicos imediatos. 




O fechamento do tradicional restaurante Taberna do Willy, o último que ainda funcionava na outrora efervescente barlândia da avenida Emancipação, é mais um capítulo desta melancólica decadência da cidade.
Restaram drogarias, lojinhas de 1,99, sorveterias e, no canteiro central, quiosques de churros, pipocas e crepes.
Charme zero.






Casa Branca, Bavária, Palato, Copacabana, Branquinha.  O que poderia ser uma quadra movimentada, com bares e restaurantes cheios, virou... um tédio. 


sábado, 20 de abril de 2019

A PÁSCOA DE MINHA INFÂNCIA




Páscoa é, para mim, uma data de recordações da infância. Chocolate, ovos coloridos com papel crepom e cheios com amendoins doces, ninhos escondidos no jardim molhado de orvalho.
Ah, e também dos temores infantis - e às vezes nem tanto -, como bois ameaçadores, nos potreiros em que brincávamos. Como estes dois da foto, que me encararam outro dia, numa caminhada pelos morros do Gravatal. 
Ainda bem que havia uma cerca entre nós...


sexta-feira, 19 de abril de 2019

LUA CHEIA



SEGUNDA PROFISSÃO: TERAPEUTA


Todos temos que ir a um salão de beleza ou ao barbeiro, pelo menos uma vez por mês. As mulheres muito mais: unhas, cabelo, tonalizar, depilar, sempre tem alguma coisa para arrumar.
O salão acaba se tornado um grande consultório onde se fala de tudo, e o cabeleireiro se torna confidente dos clientes, que desabafam sobre seus problemas, reclamam da situação do país, pedem conselhos. Desconfio até que algumas pessoas vão dar um retoque no cabelo para ter com quem trocar ideias. E ter um consulta grátis.
Motoristas de táxi também são psicólogos amadores. É só dar trela para um taxista com alguma quilometragem e ele contará tantas histórias que preencheriam o tempo de uma corrida de 50 quilômetros. Os passageiros mal apertam o cinto de segurança e já começam a desfiar suas agruras, dúvidas, dramas. Mulheres traídas pelos maridos, funcionários demitidos ou simplesmente pessoas que precisam de alguém para ouvi-los, todos têm no motorista um confidente, mesmo que nunca o tenha visto - e não mais o verá.
Lá na década de 70, quando trabalhei no jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, coloquei dois repórteres a viver a experiência de motorista de táxi por uma semana. O seu dia-a-dia no volante e as histórias contadas pelos outros motoristas renderam excelentes reportagens. 
Mas, mesmo que o paciente seja um parlapatão incontrolável, é bem difícil bater um papo-cabeça com um(a)dentista. 
Deitado imóvel na cadeira, uma luz a ofuscar os olhos, boca aberta com chumaços de algodão entre as gengivas e os lábios, aterrorizado com brocas, agulhas, estiletes e outros instrumentos de tortura, o coitado mal consegue articular respostas como "ahããã", "ão", "á". 
E, terminada consulta, sair dali o mais rápido possível...

quarta-feira, 17 de abril de 2019

É FÁCIL TERCEIRIZAR




As empresas terceirizam os serviços que não são o seu foco. As indústrias repassam custos para os lojistas, que... repassam para os consumidores. As empresas usam a pejotização (êta palavra medonha) para se livrar dos custos das leis trabalhistas, contratando os funcionários com salários mais altos como pessoas jurídicas.
Todos que podem terceirizam.
E quem não pode terceirizar?
Nas famílias, quando os pais ficam velhos e precisam de ajuda, é raro os filhos se entenderem para, solidariamente, resolver os problemas que surgem.
Geralmente sobra para o filho mais velho, o mais novo, ou aquele que, por ter compaixão - também chamam de "bom coração" - acaba se sacrificando, e à sua família - pelo bem estar dos pais e, às vezes, dos irmãos necessitados.
Esta realidade é facilmente constatada nos asilos e nos hospitais.
Quando escreveu a sua primeira carta aos Coríntios, São Paulo provou que conhecia profundamente a alma humana. O que falta mesmo, neste mundo, é amor, é solidariedade, é compaixão.:
"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
1 Coríntios 13:1-3"

sexta-feira, 12 de abril de 2019

IMBÉ, SANTUÁRIO DOS PÁSSAROS


Arno Eugênio Carrard



Jardins bem cuidados, muita arborização e gramados, IMBÉ nasceu sob o signo de um pequeno paraíso, com suas construções horizontais e unifamiliares, arquitetura rara, lagos encantadores e ausência de poluição controlada por fossas septicas. Tem uma das maiores diversidades de pássaros no Estado. Uma foto colhida na minha residência, que não aparece e fica defronte um prédio, poucos metros da Câmara e Prefeitura, depara-se com 11 caturritas barulhentas e agitadas que se refestelam com pica-paus, socós, saracuras, pombos, bentevis, corujas, canarinhos, e demais, disputando espaço no comedor e no gramado, em busca de alimentos. 

Durante décadas a Associação Comunitária de Imbé Braço-Morto luta por esses valores que não se compatibilizam com construções multifamiliares e arranha-céus. O Imbé é uma das praias menos poluídas do Atlântico Sul, com muito sol, ventos e areia. Mas o lençol freático tangendo a superfície do solo, por sua origem e constituição pantanosa, impede a canalização do esgoto e infelizmente prédios vêm sendo construídos sob o beneplácito das autoridades competentes, com a promessa de construção de futuros emissários. E as graves consequências ambientais advirão.
 Se na foto uma criança alegre, passeando com a mãe de bicicleta, sorri para as belíssimas caturritas reais, quiçá no futuro os pais apontarão para o alto indicando para as crianças pipas de papel imitando as aves.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

OUTONO







UM PASSEIO PELA HISTÓRIA DO IMBÉ

 


 Durante muitos anos a barra do Imbe/Tramandai era móvel e não fixa como é hoje.
 E era aberta a pá por pescadores. Isso era feito porque a barra existente ficava sem condições de utilidade visto ficar praticamente paralela ao mar. Assim sendo, antes de ser aberto o novo caminho do mar para o rio, a antiga barra  era isolada e aberta uma nova
Este braço isolado de água gerou um braço morto do rio, que originou a área chamada de "braço morto". Deste braço morto de água só resta o denominado laguinho da Varig.
 Assisti isso acontecer umas duas vezes. Posteriormente este braço morto foi aterrado e comercializado por Paulo Hoffmeister, dono de importante imobiliária da região, junto com Jardelino Peroni, esposo da Dona Maria. O casal ficou rico no Imbé por um milagre de Nossa Senhora, e ao falecer deixou todo seu patrimônio, compreendido por imóveis e terrenos no Imbé, para a Santa Casa de Porto Alegre, com exceção de um que ficou para sua afilhada. 
Muitas pessoas não acreditavam nesse loteamento pois entendiam que face o mesmo ter sido construido sobre aterramento de um lago, seriam terrenos com muita umidade. Mas prosperou.
Este era o Imbé de nosso tempo de saudosa lembrança. 


 Djalma Requião



Fotos da coleção da Lauro Renck 

Associação Comunitária de Imbé-Braço Morto

quarta-feira, 20 de março de 2019

A CASA DE BRENO CALDAS



Um dos homens mais importantes da comunicação, da política e da economia do Rio Grande do Sul por 50 anos - de 1930 a 1980 -, Breno Caldas, dono do Correio do Povo, se encantou com um morro da zona sul de Porto Alegre,  junto ao rio Guaíba, perto do bairro de Belém Novo. 
Comprou a sua parte mais alta, de onde se via o rio e todo a região. 
Numa viagem à Espanha, viu a casa de seus sonhos. Conseguiu a planta, que previa  até um espaço, na entrada, para os visitantes deixarem seus cavalos, e mandou fazer uma igualzinha, lá no topo do morro. Com o passar dos anos, foi comprando os terrenos à volta, até ter espaço suficiente para realizar mais uma das paixões: a criação de cavalos. Surgia o Haras do Arado. E sua propriedade se estendeu até  beira do rio, onde passou a ter uma praia privativa e um embarcadouro. 
Ali ancorou o Aventura, o seu iate, com o qual saía, com amigos, para viagens que iam a Montevidéu,  Buenos Aires ou não passavam da lagoa dos Patos. 
Na casa mandou fazer apartamentos para os filhos - gostava de ver a família reunida nos fins de semana -, piscinas. Tinha todo o conforto, como aquecimento de água central. 
Todos os dias ele dirigia o seu Mercedes até a sua empresa, a Cia. Jornalistica Caldas Júnior - e depois do fechamento da edição do Correio do Povo voltava. A casa do Arado era o seu refúgio, o seu lazer. Na varanda do segundo andar gostava de meditar, olhando a belíssima paisagem de lavouras e campos. 




A vista da varanda da frente da casa, com piscinas para adultos e crianças



O escritório de Breno Caldas 



O ancoradouro




A praiinha, no Guaíba





Estas fotos foram feitas em dezembro de 2009. Na época, participei da produção de um livro sobre a vida e a obra de Breno Caldas. A equipe, liderada por Núbia Silveira, era composta também por João Borges de Souza e Celito de Grandi. Fizemos muitas entrevistas mas o livro acabou não saindo devido ao falecimento de Celito, em 2014. Ele seria o escritor. 
Na foto, João, a esquerda,  Celito, à direita. Passamos um sábado no Haras, a convite de Breno Caldas Neto e de Nilza Caldas, filha de Breno Caldas. Conversamos muito, percorremos a propriedade e fomos homenageados com um lauto almoço. 
Uma gostosa viagem no tempo. 













sábado, 16 de março de 2019

O OITAVO DIA DE NELSON SIROTSKY






Raramente gosto de autobiografias. Quem escreve um livro sobre si mesmo inevitavelmente evitará os seus erros e exagerará nos acertos. Demorei bastante até comprar "O Oitavo Dia", a biografia de Nelson Sirotsky, escrita por ele em parceria com a escritora Letícia Wierzchowski. Mas a curiosidade acabou vencendo. Afinal, trabalhei quase 27 anos na RBS - rádio, tevê e jornais. 
Na primeira fase, entre 1973 e 1974, vivi as agruras de uma fase de vacas magras, magérrimas. Fui para a Caldas Júnior e quando voltei, em 1980, a situação era bem melhor, enquanto a concorrente já apresentava sinais da crise que acabou na sua venda. 
Já nas primeiras páginas constatei que Nelson escreveu e ditou suas memórias de coração aberto. Relatou com sinceridade a sua profunda admiração pelo pai, de quem herdou o dom da comunicação, e a quem acompanhava todos os domingos, ainda criança, aos shows do cine Castelo. Herdou também a paixão pelo trabalho, registrada na sua carteira de trabalho, assinada quando tinha 17 anos, encarando a rotina de funcionário do setor de contabilidade de Zero Hora, sem privilégio algum, ao mesmo tempo que cursava administração de empresas na Ufrgs.
Conta com naturalidade coisas que até então eram cochichadas nos corredores da empresa, como o filho que teve fora do casamento e as dificuldades enfrentadas na sua relação com Nara, a sua esposa. 
Lembra com prazer a sorte que teve ao estar em Manhattan no dia do atentado às torres gêmeas, tornando-se um aplicado repórter da rádio Gaúcha, da RBSTV e dos jornais da rede, junto com a sobrinha Tanise Dvoskin, que também estava lá - o correspondente Chico Reis não conseguiu chegar à ilha porque morava do outro lado do rio e todas as vias de acesso foram bloqueadas.
Boa parte do livro é dedicada à suas relações familiares, da vinda dos avós imigrantes para o Brasil à chegada dos netos.
Revela com detalhes o fracasso de sua tentativa de comprar a CRT junto com a Telefônica de Espanha, que quase levou a RBS à falência.

A, sempre difícil, relação com os poderes, os partidos e os líderes políticos e empresariais também é lembrada. Especialmente a hostilidade do PT contra a empresa, mesmo que tivesse contratado Lula, então presidente do partido, como colunista semanal.
A RBS Prev, empresa de previdência privada, foi uma iniciativa dele, preocupado em permitir aos funcionários uma aposentadoria digna. Graças a esta renda extra, também eu pude me aposentar quando achei que estava na hora, depois de participar, com muito entusiasmo e energia, de um período de intenso crescimento da empresa, de 1980 até 2005. 
O que não está, e poderia estar no livro, é um episódio que revela o caráter do Nelson (lá ninguém o chamava de "seu" nem de "doutor"): a empresa terceirizada que cuidava da limpeza informou que boa parte dos produtos de higiene pessoal colocado nos banheiros sumia. Inconformado, Nelson decidiu que, dali em diante, todos os funcionários ´das faixas salariais mais baixas passariam a receber, no dia do pagamento, uma cesta básica, composta de alimentos e artigos de limpeza e higiene. 
O livro é, sobretudo, a história de um homem que ousou fazer o que achava correto, assumindo os riscos de suas decisões, e que colocou paixão em tudo que fez, até tomar a mais difícil de sua vida: a de se afastar do grupo que presidia, aos 60 anos, idade que seu pai tinha quando faleceu.

 E iniciar o Oitavo dia.

quinta-feira, 7 de março de 2019

GOSTO MESMO É DE POUSADAS






Foi no Arraial da Ajuda, sul da Bahia, que eu me encantei pelas pousadas. Conhecer os donos, conviver com os hóspedes, saber das histórias do lugar. Em 1987 a "Flor do Dendê" era uma pousada bem simples. Chegamos nela como se chegava naquela época em que não havia internet - e nem mesmo telefone. Mochila nas costas, íamos de pousada em pousada até achar uma que fosse confortável (e barata, claro). 
Na primeira manhã, acordamos com o ronco de um motor de avião. Abri a janela e vi um teco-teco passando rasante sobre o telhado. O campo de pouso ficava ao lado, e ainda era operante. Hoje é um parque. 
O gerente era um garoto paulista muito responsável, que vivia correndo para abastecer a cozinha, providenciar no conserto da torneira, aquelas coisas. A moçada oferecia um baseado e ele, para não ser indelicado, respondia: "já tou doidão...".
O braço direito dele era o Pastel, baiano de Salvador. Além de arrumar as camas, limpar o chão e receber a quem chegava, era um guia turístico e até conselheiro sentimental das meninas. 
Mas era julho e o Pastel passava frio, muito frio. Acendia fogueiras no quintal para se aquecer, à noite. De dia namorava uma "penosa" do vizinho que insistia em dar mole, ciscando por ali. Um belo dia ela sumiu. Deve ter ido para a panela, com arroz. E o Pastel nunca mais falou na tal 
penosa...





Pastel, com a Lais e a Cristina

domingo, 3 de março de 2019

CARNAVAL EM PORTO ALEGRE É DEMAIS!


Há alguns anos descobri como é bom estar em Porto Alegre no carnaval. 
Meu aniversário caiu num sábado de carnaval. Chovia "a cântaros" e o litoral estava sendo invadido, como sempre, por hordas de foliões em busca de mar e diversão. Nem um lugar tranquilo para almoçar havia. 
Foi então que descobri que em Porto Alegre os hotéis dão descontos de até 50 por cento nos fins de semana. Escolhemos um apart com piscina coberta e aquecida e lá fomos nós pela free way vazia, vendo as filas de carros congestionando a pista em direção às praias. 
Um carnaval maravilhoso, inesquecível




sexta-feira, 1 de março de 2019

domingo, 24 de fevereiro de 2019

PARAÍSOS




A Ilha Reunião, no Oceano Índico, perto de Madagascar, é um paraíso, com mar de águas tépidas de cor azul-turquesa, coqueirais, florestas, montanhas, cachoeiras, clima agradável e hotéis para bilionário nenhum botar defeito. 
Por ser um território ultramarino da França (assim como Guadalupe e outras ilhas do Caribe, e a Guiana), a ilha se tornou um playground dos franceses, que lá passam suas férias, e uma alternativa para aqueles que querem mudar de vida. Afinal, quem não deseja viver no paraíso, e sem precisar morrer?
Reunião atrai também, claro, escroques de todo tipo, traficantes, alpinistas sociais e trabalhadores africanos e asiáticos para fazer o serviço pesado em hotéis, restaurantes e na construção civil.
Este foi o cenário escolhido pelos produtores da série Cut, que vai ao ar TV5 francesa . Gosto de ver por causa dos cenários belíssimos, mas o enredo, apesar dos personagens bronzeados, mulheres bonitas, com a elegância descontraída desses lugares, é uma sucessão de traições, ambição desmedida, chantagens e, de vez em quando, um assassinato.
Eu, você e a torcida do Flamengo sonhamos, desde jovens, em morar num lugar que o chavão das reportagens de turismo chama de "paradisíaco". Conheço muita gente que apostou em seus sonhos e se deu bem. Jamais deixaria o seu pedacinho de céu.
Mas muitas vezes o sonho acaba em decepção - as pessoas são iguais, em qualquer lugar. E aquela cidadezinha nas montanhas, a ilha ou a praia que conquistou o nosso coração acabam ficando apenas na recordação, ou para passar as férias.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

REDEIROS DE SÃO BENTO



Comprar redes dos nordestinos, além de ser bem mais barato, tem um sabor especial. Com elas, chegam até nós histórias como a de Jorge, paraibano de São Bento, " a capital mundial das redes", declara, com orgulho.
Cidade de 33 mil habitantes localizada a 375 quilômetros de João Pessoa, capital da Paraíba, São Bento é centro de um polo fabril onde são fabricadas 12 milhões de redes por ano. 
Elas são vendidas pelo país afora em lojas, feiras e também pelos vendedores que viajam de cidade em cidade oferecendo seus produtos, colocados em carrinhos empurrados no muque, de sol a sol. 
Jorge está no Imbé e daqui segue de volta para o seu nordeste. Mas antes passará pelo oeste de Santa Catarina, do Paraná, Mato Grosso do Sul, e sempre para o norte até Rondônia. Sua viagem dura de dez a onze. Só então poderá rever os amigos e familiares e tomar um banho no rio Piranhas (foto baixada da internet)), que corta cidade.
Uma vida dura, mas ele não se queixa. Tem trabalho e ganha o seu sustento.







São Bento, Paraiba


VIDA DESGOSTOSA

Pão sem glúten,
leite sem lactose,
café sem cafeína,
cerveja sem álcool,
vida sem graça.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O GABEIRA





Quando, lá nos anos 90, Augusto Nunes, diretor de redação do jornal Zero Hora, me chamou para comunicar que havia contratado Fernando Gabeira para fazer crônicas e reportagens e que eu seria responsável pelos contatos com ele, logo pensei em tantos colegas de trato difícil, com soberba bem maior que seu talento. "Que pepino", pensei.
O temor de desfez na nossa primeira conversa. Ele teria que vir a Porto Alegre para ser apresentado aos novos colegas, e me pediu para se hospedar numapousada modesta, na zona sul da cidade, à beira do Guaíba. Disse a ele que não havia uma pousada assim por aqui. Pensei um pouco e acabei optando pelo hotel Everest, num quarto de andar alto com vista para o rio.
No período em que trabalhamos juntos ele se revelou uma pessoa que, apesar da inteligência brilhante e um senso crítico agudo, demonstrado em seus textos e nas análises do jornal que fazia nas reuniões com os editores, nunca perdia o bom humor e o jeito mineiramente simples de tratar a todos.
Não exigia nada que não fosse ajuda de custo para pagar as despesas. Fazia as próprias fotos e, nas coberturas de eventos no Rio, usava sempre a bicicleta.
Suas pautas eram sempre criativas: descobriu o Jalapão, e fez uma entusiasmada reportagem sobre aquele pedaço de amazônia localizado no Piauí.
Numa tarde de outono ele me contou que a mudança de estação provocou nele uma súbita sensação de melancolia. Pensou um pouco, e descobriu a causa: em seus longos anos de exílio na Suécia, o fim do verão era um período de depressão generalizada. "Mas eu estou no Rio. Que maravilha", e deu uma gargalhada.
Gabeira.
Um cara para se admirar e respeitar.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

UM ANIVERSÁRIO FELIZ





Entardecer na Pedra Redonda (foto de Gilmara Gil)



Não costumo fazer festas nos meus aniversários. A única exceção foi aos 21 anos. Minha família morava no bairro Pedra Redonda, numa casa do tio Ivo Weiler com um terreno que ia da avenida Coronel Marcos até a beira da praia, no rio Guaíba.
Comprei muito salsichão, pãezinhos e garrafões de vinho e convidei os amigos e colegas a aparecerem, no fim da tarde. A churrasqueira ficava perto da praia, e ficamos ali, assando e comendo salsichões, com pão e vinho, conversando, e cantando ao som do meu violão. A noite avançava e a festa ficava cada vez mais animada. 
Sei de alguns namoros que começaram ali. O lugar convidava para beijos e abraços. 
Lá pelas tantas, alguém notou a falta do Arturzinho - Artur Borba, já falecido. Começamos a procurar, a gritar."Artur, Artuuuur". Num momento de silêncio, ouvimos a voz dele, vinda do rio, no escuro, cantando "navegar é preciso, viver não é preciso", um sucesso de Caetano Velloso da época. 
Artur havia pegado a minha canoa de alumínio e remado rio adentro. A chegada foi patética. Com todos nós reunidos na beira da praia, ele remou até a canoa encostar na beira. Bêbado, ele se desequilibrou a caiu de cara na areia.
Gargalhadas gerais. 
E a festa continuou até amanhecer.