Prof. Eng. Athos Stern
Consultor Técnico da ACIBM – Associação Comunitária de Imbé – Braço Morto
Vivemos um momento decisivo para o futuro do Rio Tramandaí.
A recente decisão judicial possui natureza provisória e
merece o respeito que todas as decisões do Poder Judiciário merecem.
Entretanto, exatamente por ser provisória, ela não elimina as dúvidas técnicas
que continuam presentes nem encerra o debate científico que a sociedade
legitimamente exige.
Muito pelo contrário.
O julgamento definitivo somente poderá representar
verdadeira justiça ambiental se estiver alicerçado em provas técnicas robustas,
transparentes, independentes e cientificamente verificáveis.
Nenhuma comunidade pode sentir-se plenamente segura quando
permanecem questões fundamentais sem respostas claras, públicas e tecnicamente
comprovadas.
O Rio Tramandaí não é apenas um curso d'água.
É um patrimônio natural de valor inestimável.
É fonte de vida.
É suporte para a pesca artesanal.
É elemento essencial da economia regional.
É espaço de lazer, turismo e convivência.
É abrigo de uma rica biodiversidade.
É um sistema ambiental extremamente complexo, onde
pequenas alterações podem produzir consequências que somente se revelarão
muitos anos depois.
Por isso, a sociedade brasileira tem o direito — e eu diria,
o dever — de exigir que cada decisão envolvendo esse ecossistema seja
sustentada pelo mais elevado padrão de conhecimento científico.
Não basta afirmar.
É preciso demonstrar.
Não basta pressupor.
É necessário comprovar.
Não bastam modelos teóricos desacompanhados de
monitoramento permanente.
São indispensáveis evidências concretas.
Há perguntas que continuam aguardando respostas
inequívocas, e delas depende a segurança ambiental do Rio Tramandaí.
A sociedade precisa conhecer, com absoluta transparência e
fundamentação técnica:
- Qual
é, efetivamente, a capacidade de suporte do corpo hídrico para receber
lançamentos contínuos de efluentes tratados sem comprometer seu equilíbrio
ecológico?
- Como
ocorre, em diferentes condições hidrológicas, a dispersão dos efluentes e
a renovação das águas do sistema lagunar?
- Quais
poderão ser os efeitos cumulativos decorrentes de anos ou décadas de
lançamentos sucessivos?
- Como
o sistema ambiental responderá durante estiagens prolongadas, períodos de
cheias e, principalmente, nas temporadas de veraneio, quando ocorre
expressivo aumento populacional e maior pressão sobre os recursos
hídricos?
- Quais
serão os impactos sobre a pesca artesanal, atividade tradicional que
sustenta famílias e integra a identidade cultural da região?
- Como
evoluirá a qualidade da água ao longo do tempo?
- Qual
será o comportamento dos nutrientes introduzidos continuamente no ambiente
e seus possíveis efeitos sobre florações de algas, eutrofização e
equilíbrio ecológico?
- Quais
poderão ser as consequências para a biota aquática, incluindo peixes,
crustáceos, moluscos, aves e demais organismos que dependem desse delicado
ecossistema?
- Existirá
monitoramento permanente, independente, transparente e integralmente
acessível ao público, permitindo que qualquer cidadão acompanhe a evolução
da qualidade ambiental?
- Foram
efetivamente estudadas, comparadas e demonstradas alternativas
tecnológicas potencialmente mais seguras sob o ponto de vista ambiental?
Essas não são perguntas retóricas.
São perguntas científicas.
São perguntas de engenharia.
São perguntas da ecologia.
São perguntas do interesse público.
São perguntas que precisam ser respondidas antes que o tempo
transforme hipóteses em danos irreversíveis.
A experiência internacional demonstra que praticamente todos
os grandes desastres ambientais tiveram um aspecto em comum.
Em algum momento de sua história, acreditou-se que os
riscos eram pequenos, controláveis ou improváveis.
Somente anos depois surgiram impactos cuja reversão já
não era possível.
A natureza possui uma característica implacável.
Ela não negocia com erros técnicos.
Ela apenas responde às intervenções que nela realizamos.
É exatamente por isso que o Princípio da Precaução permanece
plenamente atual.
Ele não representa obstáculo ao desenvolvimento.
Representa inteligência, responsabilidade e respeito pelas
futuras gerações.
Nenhuma sociedade moderna pode considerar exagerada a
exigência de estudos científicos consistentes quando estão em jogo recursos
hídricos estratégicos, biodiversidade, saúde pública e patrimônio ambiental
coletivo.
Não se trata de ser contra o saneamento.
Sempre defendi o saneamento básico como uma das maiores
conquistas da saúde pública.
Mas defender o saneamento não significa abrir mão da
obrigação de demonstrar que a alternativa escolhida é, efetivamente, a mais
segura para aquele ambiente específico.
O verdadeiro desenvolvimento sustentável nasce exatamente da
união entre engenharia, ciência, transparência e responsabilidade.
A confiança da população não pode ser construída apenas por
declarações.
Ela precisa ser conquistada por dados públicos,
monitoramento contínuo, auditorias independentes e demonstrações técnicas
capazes de resistir ao mais rigoroso exame científico.
O Rio Tramandaí pertence a toda a sociedade.
Pertence aos pescadores.
Aos moradores.
Aos veranistas.
Aos pesquisadores.
Às universidades.
Às crianças que ainda nascerão.
Pertence às futuras gerações.
Por isso, conclamo a comunidade científica, os profissionais
das áreas ambiental, sanitária, hidráulica, oceanográfica, biológica e
jurídica, as universidades, os órgãos públicos, as entidades da sociedade civil
e todos os cidadãos comprometidos com o futuro do Litoral Norte a acompanharem
atentamente cada etapa deste processo.
Precisamos de ciência independente.
Precisamos de transparência absoluta.
Precisamos de monitoramento permanente.
Precisamos de dados públicos.
Precisamos de controle social efetivo.
Precisamos de respostas tecnicamente comprovadas.
Porque uma decisão ambiental somente alcança verdadeira
legitimidade quando consegue convencer não apenas pela autoridade que a
profere, mas pela solidez das evidências que a sustentam.
Minha convicção permanece inalterada.
O futuro do Rio Tramandaí não pode depender de
presunções.
Deve repousar sobre conhecimento científico,
responsabilidade técnica e compromisso permanente com a proteção do patrimônio
ambiental brasileiro.
A sociedade não pede privilégios.
Não pede favores.
Não pede decisões antecipadas.
Pede apenas aquilo que lhe é devido em um Estado Democrático
de Direito:
respostas claras, provas técnicas consistentes e absoluta
transparência.
Porque rios não comparecem às audiências.
Lagoas não apresentam recursos.
Ecossistemas não possuem advogados.
Quem precisa falar por eles somos todos nós.
E A HISTÓRIA JULGARÁ A NOSSA GERAÇÃO NÃO PELAS PALAVRAS
QUE PRONUNCIOU, MAS PELAS EVIDÊNCIAS QUE EXIGIU ANTES DE DECIDIR O DESTINO DE
UM PATRIMÔNIO NATURAL QUE JAMAIS NOS PERTENCEU — APENAS NOS FOI CONFIADO PARA
QUE O ENTREGÁSSEMOS ÍNTEGRO ÀS GERAÇÕES FUTURAS.
Nenhum comentário:
Postar um comentário