terça-feira, 9 de julho de 2019

ROMANCE POLICIAL*


O Júlio trabalhava na Assembléia Legislativa, a casa do povo, nos tempos em que não era preciso identificação para entrar. E entrava todo mundo, de apontadores de jogo do bicho a vendedores de bugigangas. Afinal, lá todo mundo ganhava bem, se vendia qualquer coisa.
O Júlio era bonitão, e andava bem vestido, quase sempre de terno e gravata, pois tinha que ir ao plenário para assessorar os deputados. Uma vendedora de importados del Paraguay, bem bonitinha, ia frequentemente até a sala onde ele trabalhava, mesmo que ninguém quisesse comprar nada. Risonha e comunicativa, ficava ali, batendo papo furado. A coisa foi esquentando, e Júlio até que gostava quando ela sentava no seu colo e dava beijinhos no pescoço.
Numa tarde de verão, saíram pra tomar um cafezinho no Theatro São Pedro, ali do lado. O clima - e a temperatura - estavam prá lá de quentes. Até que ele perguntou se ela era casada. Ela disse que sim.
- E o que faz o teu marido?
- Inspetor de polícia - respondeu.
Júlio gelou. Nem conseguiu terminar o café.
- Olha, gosto muito de ti, mas sou muito jovem para morrer.
Deixou ela lá e voltou às pressas para o trabalho.
A vendedora nunca mais apareceu 


* Coluna da antiga Zero Hora, de Porto Alegre, publicada na editoria de polícia

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