domingo, 23 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
IMBÉ, ANO 2111
Há cem anos pouca gente acreditava nesta história de aquecimento global. O Imbé era uma praia agradável, bem cuidada, com calçadão pontilhado de quiosques. As casas junto à orla eram as mais valorizadas. A vista para o mar era o maior argumento dos corretores de imóveis.
Mas, lentamente, as ressacas foram se tornando mais violentas. As ondas passaram do calçadão, tomaram a avenida, bateram nos muros das casas.
O canal que liga as lagoas ao mar, chamado de rio Tramandaí, desrespeitou a barreira dos molhes de pedras para voltar ao antigo leito do braço morto, devorando os terrenos e casas que o impediam a seguir o curso natural rumo ao norte.
A avenida e o calçadão, abandonados, foram presas fáceis das dunas de areia, que recuperaram o espaço que os homens nunca deveriam ter tirado delas.
Em 2011 pouca gente acreditava no aquecimento global.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
FELICIDADE
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
Vicente de Carvalho
1866 / 1924
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
Vicente de Carvalho
1866 / 1924
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
O INFERNO SÃO OS OUTROS
O cara compra o seu apartamento, um bom apartamento, daqueles dos anos 60, com quartos e sala grandes, uma cozinha onde se pode circular, banheiro com banheira. Num belo dia, um vizinho vende a sua casa para uma construtora, que demole o prédio e inicia a construção de um edifício gigantesto. Ele cresce, cresce, cresce. Tapa o sol, interrompe o vento. As roupas já não secam, as paredes mofam. Como disse Jean-Paul Sartre, o inferno são os outros.
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