sábado, 17 de janeiro de 2026

A ARTE ABRE A CORTINA DE FERRO

 


A reportagem é a alma do jornalismo. Sem ela restam as opiniões, as versões, as fake news.

 Truman Capote, escritor consagrado, foi um repórter-raiz. Leu uma nota no New York Times sobre uma família de fazendeiros assassinada por dois rapazes que procuravam dinheiro e objetos de valor, resolveu ir atrás do assunto e depois de seis anos de trabalho escreveu A Sangue Frio, de leitura obrigatória para quem quer ser ou é jornalista.

"Os Cães Ladram" - referência ao provérbio árabe "Os cães ladram e a caravana passa"- é uma preciosidade para quem aprecia reportagens e boas entrevistas, coisa cada vez mais rara hoje em dia. Só o relato que ele fez, repleto de informações, detalhes e curiosidades, sobre a turnê do elenco da ópera Porgy and Bess, imortalizada pela música Summertime, na União Soviética, vale o livro.

Em dezembro de 1955, depois de uma longa negociação com o Ministério da Cultura da URSS, que pagou todas as despesas, o elenco de 94 atores, músicos, técnicos, diretores e seus familiares saiu de Berlim Ocidental para numa viagem através da cortina de ferro. Era a primeira vez que os russos veriam um espetáculo de norte-americanos. Stalin havia morrido pouco mais de dois anos atrás, e os novos dirigentes, liderados por Nikita Krutschev, queriam demonstrar boa vontade para com os seus então inimigos. Havia outra razão para este gesto: mostrar aos russos que nos Estados Unidos os negros eram explorados, humilhados, discriminados. 

As apresentações, em São Petersburgo e Moscou, lotaram os teatros e foram notícia no mundo todo. 

O livro tem mais, muito mais. Capote fez uma longa entrevista com Marlon Brando, descreveu suas temporadas no Marrocos, na Grécia, na Sicília e outros lugares exóticos. Contou como foi sua infância- imaginem que ele contracenou, ainda criança, com Louis Armstrong, sapateando enquanto ele cantava e tocava trumpete, nos barcos do rio Mississipi.

E tem muito mais.




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